Dravya Guna – Farmacoterapia Ayurvédica

O acharya P V Sharma define Dravyaguna como o ramo do Ayurveda que relaciona-se com as propriedades, ações e efeitos terapêuticos das drogas utilizadas na Medicina Ayurvedica. As drogas utilizadas são de 3 origens: animal, mineral e vegetal. Na nossa realidade utilizamos, principalmente, os medicamentos de origem vegetal, a denominada fitoterapia ou uso terapêutico das plantas medicinais.

O Ayurveda afirma que existem 7 constituintes de Dravya Guna, a saber: Dravya ou substancias que possuem Guna, ou propriedades, e Karma, ação. Segundo Caraka as substâncias ( Dravyas) são formadas pelos Pancha Maha Bhutas, os 5 grandes elementos da natureza: éter, ar, fogo, água e terra. As propriedades destas substâncias ou drogas são influenciadas pelas concentrações destes elementos na sua composição. Podemos citar o exemplo do gengibre, excelente digestivo, que possui o elemento fogo, fonte do picante nesta planta medicinal.

Rasa, aquele constituinte de Dravya Guna percebido pela língua, ou sabor da substância. O Ayurveda afirma que existem 6 sabores : doce (madhura), formado pelo elemento água e terra, ácido (amla), constituído de fogo e terra, sal (lavana), possui água e fogo, picante (katu), formado por ar e fogo, amargo (tikta), apresenta ar e éter, e por último adstringente (kashaya), constituído de ar e terra. Estes 6 sabores são utilizados na escolha da dieta e dos medicamentos no Ayurveda.

Guna, são as propriedades físicas de um medicamento que são responsáveis pela sua ação terapêutica. Os Gunas são divididos em 20 qualidades principais que são fundamentais para a escolha da droga adequada ao tratamento. Dentre estas qualidades podemos citar o leve (laghu) e pesado (guru). Os medicamentos leves diminuem o peso corporal, reduzem Kapha e aumentam Vata Dosha. Já as drogas com propriedades pesadas aumentam o peso do corpo, reduzem Vata e elevam Kapha Dosha.

Virya, a potência pela qual a droga produz o efeito terapêutico e controla a ação dos medicamentos. O frio (seeta) reduz a temperatura corporal, acalma Pitta Dosha e agrava Vata e Kapha. Já o calor (ushna) aumenta a temperatura corporal, agrava Pitta Dosha porem diminui Vata e Kapha.

Vipaka, a propriedade das drogas que são responsáveis pelas mudanças no sabor original. Também é chamado de sabor pós-digestivo devido a exposição das enzimas digestivas. As substancias doces e salgadas possuem Vipaka doce, as drogas com sabor ácido apresentam Vipaka ácido, já os medicamentos com sabor picante, amargo e adstringente tornam-se picante após a digestão.

Prabhava, um resultado especial que não pode ser explicado pelas propriedades ou qualidades das drogas. Podemos citar como exemplos: o mel e o limão. O mel que é uma substancia doce não aumenta Kapha, que é um Dosha, normalmente, agravado por alimentos adocicados. Já o limão que é uma fruta ácida não agrava Pitta, um Dosha, normalmente, elevado por substâncias ácidas.

Por último os autores referem o Karma, ou ação terapêutica, como também constituinte de Dravya Guna. Esta ação farmacológica das drogas depende de Rasa, Guna, Virya, Vipaka e Prabhava. Através deste pequeno artigo podemos observar a complexidade da farmacoterapia Ayurvedica e a necessidade de estudos com professores com experiência na utilização de Dravya Guna.

Dr. Aderson Moreira da Rocha

Clínico geral, reumatologista e acupunturista

Mestre e doutorando em Saúde Coletiva pela UERJ

Presidente da Associação Brasileiera de Ayurveda, visite: http://www.ayurveda.com.br

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IMPERMANÊNCIA – LEI DIVINA UNIVERSAL

A cada dia Deus recria o universo e reinventa suas criaturas.

Nada é permanente, a não ser a própria impermanência das coisas.

A impermanência é lei divina e é em conseqüência dela que tudo evolui, recriando-se a cada segundo. É, pois, na impermanência das coisas que está o próprio progresso inexorável a que todos estamos sujeitos.
Vemos a impermanência de tudo na própria natureza, quando o colorido da primavera se transforma na luz abrasadora do verão, que fenece na frutificação do outono, que descansa nas sombras frias do inverno e novamente desperta em luz viva na primavera.

E ainda que este movimento pareça circular e repetitivo, a cada volta completa manifesta-se num nível acima do anterior, evoluindo numa espiral ascensional de vida e amor.

E a cada nível superado, toda a natureza se renova, criando novas espécies, eliminando outras, adaptando-se constantemente à vontade de Deus.

Nenhuma consciência é descartável, mas todas são substituíveis no movimento contínuo de renovação da Criação, pois vão se seguindo, umas às outras, nos vários níveis, de modo que nenhum deles fique vazio e improdutivo. No momento em que uma consciência está pronta para ascender ao nível seguinte, uma outra consciência toma seu lugar, mantendo em movimento a engrenagem divina.

Nesse turbilhão ascensional, ninguém consegue ficar parado, ainda que se acorrente voluntariamente à aparência efêmera das coisas.

Ninguém é capaz de deter a própria evolução, ainda que ignore deliberadamente todos os movimentos contínuos da natureza em seu próprio ser.

Nesse universo em transformação, ninguém possui nada de si, a não ser o próprio processo interno de crescimento e evolução. E nesse despojamento espiritual com que Deus criou a todos, está a razão primordial de toda existência, pois é Nele que tudo começa e termina, no encontro sagrado do Alfa e do Ômega.

A cada torção da espiral, a consciência se recria, despojando-se, mais uma vez, do que pensa que é para retornar ao que realmente é no contexto divino universal.

E, no processo de recriar-se a cada ciclo de sua existência espiritual, a consciência se reinventa, agregando novas experiências e conhecimentos à sua estrutura essencial eterna.

Recriar-se e reinventar-se são processos internos contínuos, a que toda consciência está submetida em obediência à lei universal de impermanência.

Recriando-se e reinventando-se, a cada segundo, toda consciência renova consigo o próprio universo, que também se transforma no mesmo processo.

Nascer e renascer são partes do recriar-se e renovar-se, e estão muito além do simples nascer e morrer de um corpo físico.

Toda consciência nasce e renasce, de si mesma, a cada pensamento, a cada movimento, a cada nova invenção que faz consigo mesma, criando um novo ser.

Toda consciência nasce e renasce milhares de vezes a cada parto e a cada morte física, pelas emoções e sensações experimentadas a cada vez que estes fenômenos se repetem.

Nascendo e morrendo; renascendo e novamente morrendo; e recriando-se o tempo todo, continuamente, como ser divino, pleno e completo, autodescobrindo-se em camadas de existência que se desprendem aos poucos, pela ação irresistível da força centrífuga da própria espiral que a carrega.

E despindo-se de si para vestir-se de Deus, a consciência se eleva, às vezes sofrendo, às vezes sorrindo, trazendo consigo uma porção do universo, que traz consigo outras consciências, que trazem consigo outras porções de universo, que trazem consciências…

– Maísa Intelisano –
São Paulo, 01 de maio de 2004.

A diversidade da cozinha indiana pelos olhos da Ayurveda

As especiarias, ervas e diversas misturas de temperos têm importância fundamental na terapia Ayurveda e na culinária indiana, sendo utilizadas em diversos tipos de preparações medicamentosas, além de ilustrar os diversos sabores dessa gastronomia tão rica e especial. Não é à toa que a culinária indiana aprecia tanto as especiarias, pois elas refletem uma cozinha de muitos aromas e sabores. Embora ganhe características próprias em cada região, em todas as cozinhas hindus, predominam os combinados de especiarias, as famosas e tradicionais Masalas.

As especiarias em geral regulam e estimulam o apetite, neutralizando as propriedades pesadas dos alimentos. Ajudam na limpeza dos canais (nadis), queimando toxinas (Ama) e consequentemente promovendo a saúde física e mental.

Na terapia Ayurveda existem preparações especiais feitas à partir de combinações de determinadas plantas, condimentos, óleos vegetais, frutas secas e outros produtos naturais . Fundamentado em estudos e experimentações destes preparados, apresentamos Masalas, Churnas e Lehyas que são associados à culinária de forma terapêutica, além de Óleos medicados e Lepas, que são pastas obtidas através da maceração de ervas e cêra de abelha para uso externo da pele, em casos diversos dependendo das ervas obtidas.

As Masalas são misturas de especiarias ou temperos na qual existem diversos tipos de combinações que além de facilitar a digestão proporcionam um sabor único aos alimentos. Essas misturas já oferecemos prontas, para facilitar o manuseio das mesmas e os preparos de diversos pratos. A maneira mais indicada de uso das Masalas é refogando o pó rapidamente em uma panela com um pouco de ghee ou óleo vegetal da sua preferência para que as especiarias liberem o seu sabor e suas propriedades. Depois é só misturar o resto dos ingredientes, vegetais, grãos, arroz ou o que for ser preparado.

Algumas combinações de masalas podem ser usadas diariamente com viés terapêutico, como a masala para os doshas Vata, masala pitta e masala kapha.

As Churnas são misturas de pós finos e secos de ervas para serem tomados em forma de chá. A dose varia de 1 a 3 g por dia, mas como suas combinações possuem finalidades específicas, é sempre importante conversar com um terapeuta ou médico ayurveda antes da ingestão. Algumas Churnas possuem as propriedades digestivas, outras respiratórias e anti-gripais.

As Lehyas são pastas obtidas através do processamento de frutas secas, como as uvas passa, ameixas e tâmaras, combinadas com ghee, especiarias, castanhas, mel e ervas. Basicamente elas têm o objetivo de nutrir os tecidos ósseo, muscular e cerebral, dependendo das combinações dos ingredientes. Sua mistura e consistência assemelha-se ao famoso chyawanprash, combinado muito utilizado nessa Terapia na Índia, para a imunidade e fortalecimento do Ojas. Elas são de sabor doce e agradável, e podem substituir facilmente os doces industrializados que frequentemente consumimos. Muito indicado no caso de crianças e idosos desnutridos, ou mesmo para quem quer optar por uma sobremesa mais saudável.

Algumas combinações para um cardápio completo e enriquecido de saúde e sabor:

Entrada para acender o fogo digestivo:

Chai massala diluído no chá de jasmim

Fritada no ghee de ervilha fresca temperada com gengibre e azeite de ervas

Prato principal para sabores além da Índia:

Legumes ao molho curry picante agridoce

Arroz de ervas com açafrão

Para sobremesa que deve ocorrer 2hs após a refeição:

Bolinhas de Lehya de uva passa acompanhada de sorvete de baunilha com calda de especiarias

Divirtam-se com a exploração dos cinco sentidos…., sentido do tato ao tocar e manusear os frutos, legumes e grãos e perceber suas diversas texturas…, sentido auditivo para ouvirmos o barulho do tempo de cozimento de cada prato…., sentido obrigatório olfativo para percebermos os diveros sabores que estamos misturando antes mesmo de prová-los…, sentido visual pois são muitas cores que nossa cozinha vegetariana nos enche os olhos…., e claro, graças à todos os deuses temos o sentido gustativo que nem preciso comentar!!! É só provando para saber…

Ananda Knoll e Glendha Kreutzer

O Gengibre: A panacéia indiana

O Zingiber officinalle, comumente conhecido como gengibre, em sânscrito é chamado de Ardrak (fresco) ou Sonth (seco). No Ayurveda é denominado de remédio universal devido as suas muitas propriedades terapêuticas.É uma planta medicinal originária da Ásia e aclimatada no Brasil, cresce até um metro porem é sua raiz debaixo da terra que apresenta valor terapêutico e culinário. Esta erva medicinal vem sendo utilizada na medicina Chinesa e no Ayurveda há milhares de anos pelos médicos orientais.

O gengibre apresenta propriedades terapêuticas sobre o sistema digestivo, pois estimula a liberação de enzimas que promovem o esvaziamento do estômago. Tem sido utilizado com êxito no tratamento de náuseas e vômitos em diversas doenças, é efetivo nos enjôos da quimioterapia, alem disto estudos demonstraram benefícios em baixar o nível do colesterol e reduzir a aderência as plaquetras.

A raiz do gengibre melhora a circulação e é indicada por médicos chineses e indianos para pés e mãos frias. A Medicina Ayurvedica afirma que o gengibre atua nas três fases da função gastro-intestinal: digestão, absorção e evacuação. Na Índia recomenda-se o chá de gengibre em decocção (fervura da raiz), com 3 gotas de limão e uma pitadinha de sal marinho, 30 minutos antes das refeições para estimular o fogo digestivo, promover uma boa digestão e aliviar flatulência.

Esta planta medicinal possui uma importante ação antiinflamatória e anti-reumática, tanto para uso interno quanto para uso externo. O suco, pasta ou óleo essencial do gengibre pode ser aplicado externamente para dores, inflamações e cefaléias. No caso de reumatismo, artrose, contraturas musculares, lombalgia e cervicalgia podemos fazer uma massagem local associada a fricção com pasta ou óleo essencial de gengibre. Isto promove um efeito de aquecimento local associado a uma analgesia (alívio da dor)
O gengibre possui uma atividade anti-viral e antiinflamatória sendo largamente utilizado em quadros respiratórios de vias aéreas superiores. Devido as suas propriedades picantes e amornantes é utilizado para gripes e resfriados no inverno, rouquidão, inflamação da garganta, tosse e secreção. Um chá de gengibre em decocção (fervura das raízes), com alho, casca de canela e depois de pronto adicionamos uma colher de sopa de mel de eucalipto é eficaz nestes quadros respiratórios. Deve ser tomado morno 3 vezes ao dia entre as refeições até sumirem os sintomas.

O Ayurveda classifica o gengibre como uma raiz de sabor picante, energia quente, pacifica Vata e Kapha mas pode agravar Pitta se utilizado em excesso. Podemos também utilizar o gengibre na culinária como um excelente condimento aumentando o sabor picante e a energia quente das receitas vegetarianas. Com este objetivo, na Índia, o gengibre é associado a outros temperos: pimenta do reino, canela, noz moscada, cravo, cardamomo e alho.

Em uma publicação recente sobre plantas medicinais, “Major Herbs of Ayurveda” são descritas as seguintes propriedades do gengibre: atividade antiemetica (alivia náuseas), atividade antiulcerosa, atividade hepatoprotetora (protege o fígado), atividade antiinflamatória, atividade antipirética (reduz a febre), atividade cardiovascular (diminui o colesterol e os triglicerideos), atividade antioxidante (elimina radicais livres), atividade imunomoduladora (promove o sistema imunológico) , atividade antiviral. Porem é contra-indicado na gravidez pelo potencial de induzir a contração uterina. Com tantas propriedades benéficas não podemos deixar de utilizar esta raiz tanto como erva medicinal quanto como condimento na alimentação.
Namaste

Dr. Aderson Moreira da Rocha
Clínico geral, reumatologista e acupunturista
Pesquisador da Medicina Oriental há mais de 20 anos
Presidente da Associação Brasileira de Ayurveda – ABRA

Yoga e Yogaterapia na prevenção e tratamento dos desequilíbrios dos doshas

“Yoga e Ayurveda caminham juntos. Yoga e Ayurveda são antigas disciplinas de vida que tem sido praticadas há muitos séculos na Índia. Eles são mencionados nos Vedas e nas Upanishads. Yoga é a ciência da união com o Divino, com a Verdade, e o Ayurveda é a ciência da vida. Yoga participa com o Conhecimento e o Ayurveda com a perfeita saúde. Portanto, um yogi que não conhece Ayurveda é um meio-yogi e um terapeuta ayurvédico que não conhece Yoga é um meio-terapeuta ayurvédico. O objetivo do Yoga é a união com o Ser Supremo, mas esta união só pode ser obtida quando você tem um corpo saudável, uma mente saudável e uma consciência saudável. Assim , Yoga e Ayurveda são os alicerces da vida. São as duas faces de uma mesma moeda. Eles são Um. Asana, pranayama, relaxamento, mantra e meditação são algumas das principais prescrições do Ayurveda.”

Dr. Vasant Lad

Segundo o Samkhya – a filosofia pré-védica que embasa o Yoga e o Ayurveda e que classifica e estuda todo o processo da criação do universo – esta criação começa a partir da interação de um princípio espiritual, transcedental – Purusha, com um princípio vital, material – Prakriti.

Fazendo uma analogia, Purusha seria como a eletricidade e Prakriti, a lâmpada. A luz – neste caso a criação – ocorre quando a energia sutil anima a matéria.

Da mesma forma como a luz gerada por uma lâmpada é fruto da interação das três cores básicas – amarelo, azul e vermelho – a Prakriti age na criação manifestando suas três gunas – as qualidades da natureza material: Sattwa, o princípio do equilíbrio, da paz, da pureza; Rajas, o princípio do movimento, da atividade, da paixão; e Tamas, o princípio da inércia, da escuridão e da ignorância.

As gunas vão interagir complexa e infinitamente dos níveis mais sutis aos mais densos da criação, do mais espiritual ao mais abissal. Segundo o Tantra – e este conhecimento é importante no trabalho com Yoga e Ayurveda – a função de Rajas é atuar de forma ativa sobre Tamas para suprimir Sattwa, ou sobre Sattwa para suprimir Tamas. E a função de Sattwa é criar condições para a transcendência e a de Tamas é manter o estado de ignorância.

A partir da manifestação das gunas, surge o nível Causal – Mahat. No homem, Buddhi é o intelecto responsável pela faculdade do discernimento, e é aonde centra-se avidya, a ignorância do nosso estado Uno, e que resulta em maya, a identificação equivocada com esta realidade dual. Localiza-se – usando as duas terminologias hindus que definem os diferentes corpos e dimensões do ser – no Karana sharira (o corpo causal, o inconsciente) ou ainda em Ananda e Vijñana maya kosha (os “envólucros” da bem-aventurança e do intelecto).

De Buddhi manifesta-se Ahamkara, o ego. Do ego manifesta-se Manas, a mente, o receptáculo de Chitta, a matéria mental, o inconsciente, a memória, de onde advém os Vrittis, os movimentos da mente – os pensamentos. Em Manas, nossos pensamentos, palavras e ações vão criar os samskaras (impressões na mente) que vão determinar os padrões – vasanas (tendências), isto é, nosso caráter. Isso tudo localiza-se no Sukshma sharira (corpo sutil) ou em Mano e Prana maya kosha (os envólucros da mente e do Prana).

Em Pranamaya kosha é que se localizam o nível mais periférico dos Chakras (as pétalas) as pranavaha nadis (condutos de energia que conduzem o Prana).

De Manas, manifestam-se os cinco Tanmatras (cinco sentidos: visão, audição, paladar, olfato, tato), os cinco Jñana indriyas (órgãos de conhecimento: olhos, ouvidos, pele, nariz, língua) , os cinco Karma indriyas (órgãos de ação: pés, mãos, bôca, ânus, genitais) e os cinco Mahabhutas (elementos: terra-prihtivi, fogo-agni ou tejas, água-jala ou apas, ar-vayu, éter-akasha). Isso tudo localiza-se em Shtula sharira (corpo denso) ou Annamaya kosha (o envólucro do alimento, área de atuação do Jataragni).

As funções de Buddhi, Ahamkara e Manas são chamadas Antakarana, ou órgão interno.

Finalmente, da interação dos cinco Mahabhutas surge o Tridosha (os três doshas):

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Vata, da interação do éter com o ar: dosha frio e seco, e que fundamentalmente controla o movimento.
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Pitta, do fogo com a água: dosha quente, que controla o metabolismo.
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Kapha, terra e água: dosha frio e úmido, que controla a estrutura.

E a infinita e complexa interação destes três princípios reflete o aspecto mais material da criação dos níveis macro ao microcósmico em todos os seres vivos. Os doshas também são a ponte entre nossa mente e nossa fisiologia.

Cada um dos doshas está relacionado a uma essência sutil: Vata está relacionado com o Prana – a energia vital, que se subdivide em cinco pranas (ou vayus = ventos); Pitta com Tejas ou Agni, o fogo essencial (cujo aspecto mais importante para o Ayurveda é Jataragni, o fogo digestivo) e Kapha com Ojas, a energia mental. Poderíamos dizer, utilizando as palavras de Robert Svoboda, que Prana, Tejas e Ojas “são as expressões quintessenciais dos cinco Mahabhutas em sua aplicação à vida encarnada” e que os doshas “são as formas mais grosseiras de Prana, Tejas e Ojas”, e “são as formas condensadas dos cinco Mahabhutas”.

As três gunas atuam interagindo-se ampla e profundamente nos e com os três doshas, mas de uma forma geral, Vata e Pitta relacionam-se mais a Rajas e Kapha a Tamas (Sattwa é a guna do equilíbrio).

Há mais de 5000 anos na Índia, desenvolveu-se a Medicina Ayurvédica, profundamente embasada na filosofia Samkhya e no Tantra (também de origem dravidiana pré-védica). Nesta ciência, a espinha dorsal é o conhecimento dos doshas e sua atuação no ser humano, tanto física, quanto psicológica , emocional e energeticamente.

A partir dos conhecimento dos doshas e da origem e consequências de seus desequilíbrios , estabeleceu-se tipologias específicas, e a partir daí toda uma metodologia de diagnósticos, dietética, massagens, fitoterapia, farmacologia, cirurgia, etc.

Todas as pessoas apresentam uma interação complexa destes três princípios. O mais comum é predominar um dos doshas, havendo o hábito de ser dizer, por exemplo, que tal pessoa é ” Vata-Pitta” ou ” Pitta-Kapha”, considerando-se o dosha predominante e o que vem em segundo lugar de importância.

São duas, as classificações consideradas para efeito do levantamento da tipologia pessoal: a prakritti, isto é, a sua configuração dos três doshas por ocasião de seu nascimento, e a vikritti, a configuração que se apresenta agora, neste momento. A sua referência de equilíbrio é a sua própria prakritti. As terapias ayurvédicas estarão sempre ajudando a manter e/ou trazer sua vikritti no nível da sua prakritti.

O dosha Vata é sempre o que mais se desequilibra, geralmente também desequilibrando os outros doshas.

Este perfil pessoal vai apontar entre outras coisas – e o que é, aliás, o assunto central deste texto – os pontos fracos, as vulnerabilidades e fragilidades inerentes aos doshas predominantes, e quando em desequilíbrio.

Predominância Vata ou aumento de Vata, por exemplo, criam vulnerabilidades na área das articulações (artroses, artrites, etc.), dos intestinos (prisão de ventre), tendência para o consumismo, apetite instável, stress, doenças nervosas, dores em geral, medos, insônia e memória ruim. Como é um dosha frio e seco, poderá haver tendência a se resfriar, e a ter pele e cabelos secos. Tem normalmente estrutura corporal magra e ossuda.

Vata está relacionado aos cinco pranas, pois cada prana é um sob-dosha de Vata (cada dosha tem cinco sub-doshas), ainda assim, tem uma relação mais intensa com os pranas: Prana (aspecto funcional do prana que gerencia os processsos de absorção. Está relacionado ao chakra Anahata – elemento ar – e a glândula timo, gerenciando a respiração, atividade cardíaca, cintura escapular , membros superiores, afetos e sentimentos) e Udana (É o prana do chakra Vishuddha – elemento éter – e da glândula tireóide. Gerencia voz, garganta, cervical, visão, olfato, audição, todo o cérebro, criatividade, comunicação).

A predominância Pitta ou seu aumento excessivo, poderá acarretar em fragilidade na área estomacal – gastrites, por exemplo – se abusar, pois Pitta come muito bem e em geral digere bem. Tem tendência à irritabilidade, raiva, ódio e ciúme. É o “pavio curto”, o que aliás também é péssimo para o estômago, aumentando a secreção de ácido clorídrico, tornando-o uma vitima potencial de úlcera. Eventualmente pode ter desarranjos intestinais e problemas de pele. Como é um dosha quente, Pitta tem pouca tolerância ao calor.

Pitta está relacionado ao prana Samana (prana da assimilação. Relaciona-se ao chakra Manipura – elemento fogo e a glândula pâncreas, gerenciando o calor corporal, a digestão, estômago, intestino delgado, fígado, vesícula, emoção, auto-estima, poder pessoal).

Por fim, a predominância Kapha apresenta normalmente forte estrutura corporal, com tendência a obesidade. De apetite voraz, tem tendência a ter glicose e colesterol altos. Dorme muito. Pode vivenciar preguiça, pessimismo, inveja, estados depressivos e também avareza e mesquinhez.

Kapha tem tendência a criar muito muco, devendo ter cuidado para evitar pneumonias, rinites, sinusites, bronquites. E uma das principais características de Kapha é a umidade e a oleosidade.

Kapha está relacionado aos pranas Vyana (prana da circulação. Está relacionado ao chakra Swadhisthana – elemento água – e às glândulas reprodutoras, gerenciando a circulação dos líquidos pelo corpo, a cintura pélvica, região lombar, sensualidade, sexualidade e reprodução) e Apana (prana da eliminação. Relacionado ao chakra Muladhara – elemento terra – e as glândulas supra-renais. Gerencia a base, as pernas e os pés, intestino grosso, ânus, excreções de uma forma geral, instinto de defesa, apego, medo).

Então, para ajudar na promoção da saúde e no tratamento das doenças, o Ayurveda utiliza o Yoga como uma das suas mais importantes ferramentas terapêuticas. Aliás, todo o conhecimento – teórico e prático – espiritual, filosófico e terapêutico hindu repousa solidamente sobre os pilares do Ayurveda, do Yoga, do Tantra e da Vedanta.

Seguindo a premissa ayurvédica de que todo o trabalho deve ser absolutamente personalizado, a Yogaterapia ayurvédica (chamada pelo Dr. Vasant Lad de AyurYoga) vai buscar atuar de acordo com as particularidades tipológicas de cada um, utilizando o instrumental do Hatha e do Tantra Yoga – asanas (posturas), pranayamas (respirações), kriyas (limpezas), bandhas (contrações), mudra (gestos energéticos), mantras (vocalizações energéticas), nidra (relaxamento) e meditação – que podem ser associados a práticas ayurvédicas complementares, tais como massagem, dietética e fitoterapia.

A prática yóguica mais diretamente relacionada com os doshas é a Pavana Muktasana.

Trata-se de uma técnica formada de quatro séries de exercícios físicos e respiratórios:

– A primeira série chamada “anti-reumática” (Sukshma Vyayama – exercícios sutis), trabalha mobilizações que movimentam todas as articulações do corpo, desimpedindo o fluxo energético por atuar sobre os chakras auxiliares localizados em cada articulação do corpo. As articulações acumulam toxinas oriundas principalmente da má alimentação e da vida sedentária. Esta série está relacionada a Vata dosha.

– A segunda série chamada “anti-gastrítica” (ou Apanasana: as asanas do apana, a energia que gerencia a excreção), trabalha envolvendo principalmente a musculatura abdominal. Energiza e equilibra o Jataragni. Esta série está relacionada a Pitta dosha, embora Vata também seja beneficiado em razão de sua tendência à prisão de ventre.

– A terceira série, energizante (Shakti bandhas: contrações energéticas), está relacionada a Kapha dosha.

– E a quarta série chamada Trataka, são exercícios específicos para os olhos , e que vão beneficiar especialmente Pitta, que é o dosha dos olhos, da visão.

As técnicas de Pavana muktasana (literalmente “liberação dos ventos” – articulares, estomacais e intestinais) foram resgatadas e recodificadas por Swami Satyananda Saraswati, e podem ser encontradas em seu livro: “Yogasana, Pranayama, Mudra, Kriya, Nidra” e no livro “Psicologia do Tantra” do prof. Paulo Murilo Rosas. Pavana Muktasana é excelente para manter e/ou restaurar o equilibrio dos três doshas.

A série de Surya Namaskara (saudação ao Sol) também pode e deve ser feita regularmente para equilibrar os doshas. Deve-se apenas observar que esta série, segundo o Tantra, atua energizando especialmente a nadi Pingala (polaridade solar, masculina, quente, positiva). Como Vata e Kapha estão mais relacionados a nadi Ida (polaridade lunar, fria, feminina, negativa) e Pitta a nadi Pingala, as pessoas de Vata e Kapha devem fazer a série de forma bem dinâmica com as respectivas respirações e as pessoas Pitta devem fazer a série mais lentamente, com a respiração livre, suave e profunda.

Vata está relacionado com o chakras Anahata (elemento ar) e Vishudha (éter) e necessita de “trabalho de base” para drenar o excesso de energia dos chakras superiores para os básicos.

Vata será beneficiado com a prática de Yoga Sukshma Vyayama (ver “Psicologia do Tantra”, prof. Paulo Murilo Rosas), que aquece e promove “grounding”, trabalhando a energia dos chakras superiores para os básicos (Shristhi krama, ou o Caminho da criação).

Posturas de grounding também são os Trikonasanas e Parshwa Konasana – que também aumentam a capacidade respiratória promovendo a abertura do gradil costal – e os Guerreiros 1 e 2.

O trabalho de Pavana Muktasana é excepcionalmente benéfico para Vata, especialmente as duas primeiras séries, mas as pessoas que possuem este dosha muito elevado não devem exagerar, pois esta técnica trabalha movimentando a energia dos chakras básicos para os superiores (chamado no Tantra de Laya krama, ou o Caminho da dissolução). Uma solução seria alternar Pavana Muktasana com Yoga Sukshma Vyayama.

Posturas de meditação – dhyanasanas (Padmasana, Vajrasana, Sukhasana, Siddhasana) vão dar segurança e estabilidade para Vata. É o dosha mais beneficiado pelas práticas de concentração e meditação.

Surya Namaskara também é excelente para equilibrar Vata, promover grounding, aquecer e manter as articulações e os intestinos em boas condições. Trabalhos articulares para a coluna, como o Gato – que pode ser desdobrado de várias formas – vão manter a saúde das articulações vertebrais, raízes nervosas, ligamentos e músculos das costas. Também são interessantes as posturas de extensão (Bhujangasana, Dhanurasana, Chakrasana, Ustrasana) – para abrir os peitorais e o gradil costal; de flexão da coluna (Paschimottanasana, Padahastasana, Janushirshasana) para tonificar os intestinos e sedar o sistema nervoso; e de equilibrio (Vrikshasana, Natarajasana).

E é bastante útil a prática de Mula bandha (contração do períneo) durante as asanas, para tonificar o aparelho excretor e para energizar os dois primeiros chakras básicos.

Pranayamas com ritmo e sem retenções prolongadas – como Anuloma Viloma, respiração completa com krama, respiração quadrada (Samavritti) – são boas para equilibrar Vata.

Pitta dosha será reequilibrado com pranayamas sedantes: Chandra, Chandra bheda, Nadi shodhana, Shitali, Sitkari, e lentas respirações abdominais com ênfase na expiração.

Asanas de compressão do ventre são importantes para sedar Pitta e acalmar o Jataragni, como Paschimottanasana e Matsyendrasana. Inversamente, posturas de extensão (Chakrasana, Ustrasana, Dhanurasana) vão tender a aumentar Pitta e o Jataragni.

O trabalho de Pavana Muktasana – especialmente a segunda série – vai ajudar a equilibrar Pitta. Pitta também é sedado com posturas de inversão (Viparita karani e Sarvangasana). Posturas de equilíbrio também são importantes para Pitta. É o dosha mais beneficiado pela prática de relaxamento e de Yoga Nidra (meditação composta de relaxamento com visualizações).

O dosha Pitta é o que está mais diretamente relacionado com Jataragni, o fogo digestivo, por isso são muito úteis os trabalhos com as Kriyas (purificações) Agni sara (limpeza pelo fogo) e Kapalabhati (o sopro do crâneo) e com Uddhyana bandha (se não houver gastrite), feitas sem exagero. Vão equilibrar e manter a boa qualidade do Jataragni. Bhastrika pranayama (o fole) vai aumentar bastante Pitta e o Jataragni. Yoga Sukshma Vyayama também vai tender a aumentar Pitta.

De uma forma geral, os pranayamas – especialmente os com retenções mais longas – vão beneficiar especialmente o dosha Kapha, mantendo o aparelho respiratório em boas condições. Respiração completa com ritmo (1:4:2:4) e com ênfase nas fases média (intercostal) e alta (subclavicular).

Kriyas de limpeza como Kapalabhati e Agni Sara, e pranayamas tonificantes como bhastrika (se não for hipertenso), Surya e Surya bheda, Ujjayi, feitos moderadamente, são interessantes para Kapha.

Este dosha também será muito beneficiado com a prática de asanas de uma forma mais movimentada, como Surya Namaskara ou asanas com vinyasa (asanas dinâmicas preparatórias).

Kapha, o dosha da base, da estrutura, está relacionado aos chakras básicos : Muladhara (elemento terra) e Swadhisthana (água).

A Pavana Muktasana vai atuar positivamente em Kapha, drenando o excesso de energia da base para os chakras superiores.

Já Yoga Sukshma Vyayama, que embora seja uma técnica quente e movimentada – bom, portanto, para Kapha – funciona drenando a energia para os chakras básicos, e não deve ser feita com exagero, preferencialmente alternando-se com Pavana.

Segundo o critério de Langhana e Brimhana – os parâmetros ayurvédicos de classificação e avaliação dos processos da sedação e da tonificação (e que será assunto de um outro texto), dentre as asanas e os pranayamas que tem efeitos sedantes e tonificantes, aqueles que tem especificamente efeito equilibrador e harmonizador para todas as tipologias são: nadi shodhana (a respiração polarizada) e shirshasana (postura sobre a cabeça), esta última levando-se em conta suas contra-indicações (hipertensão, glaucoma,etc.).

Asanas para os desiquilíbrios dos doshas
Segundo o Dr. Vasant Lad

1. Asanas para desequilíbrios de Vata:

– ASMA: Supta Vajrasana, Halasana, Pavana Muktasana (a asana) , Shavasana.
– DOR NAS COSTAS: Pavana Muktasana, Halasana, Ardha Chakrasana, Supta Vajrasana.
– PRISÃO DE VENTRE: Supta Vajrasana, Yoga Mudra, Pavana Muktasana, Sarvangasana, Shavasana. Fazer todas as asanas com a barriga contraída.
– DEPRESSÃO: Yoga Mudra, Halasana, Padmasana, Nitambasana, Shavasana.
– DOR CIÁTICA: Pavana Muktasana, Supta Vajrasana, Halasana, Yoga Mudra, Ardha Chakrasana.
– DEBILIDADE SEXUAL: Supta Vajrasana, Halasana, Sarvangasana, Kukutasana.
– VARIZES: Sirshasana, Supta Vajrasana, Shavasana.
– RUGAS: Yoga Mudra, Supta Vajrasana, Sirshasana, Halasana.
– ARTRITE REUMATÓIDE: Ardha Chakrasana, Dhanurasana, Halasana, Sirshasana, Supta Vajrasana.
– DOR DE CABEÇA: Halasana, Yoga Mudra, Sirshasana.
– INSÔNIA: Shavasana, Bhujangasana, Supta Vajrasana.
– DISTÚRBIOS MENSTRUAIS: Halasana, Bhujangasana, Ardha Chakrasana, Yoga Mudra.

2. Asanas para desequilíbrios de Pitta:

– ÚLCERA PÉPTICA: Shitali Pranayama.
– HIPERTIREOIDISMO: Sarvangasana, Karna Pidasana.
– MÁ DISGESTÃO: Pavana Muktasana, Matsyasana, Shalabhasana.
– HIPERTENSÃO: Sarvangasana, Bhujangasana, Naukasana.
– RAIVA OU ÓDIO: Naukasana, Sarvangasana, Shavasana.
– ENXAQUECA: Shitali Pranayama, Sarvangasana, Matsyasana.
– COLITE: Matsyasana, Karna Pidasana, Navasana, Dhanurasana.
– DISTÚRBIO HEPÁTICO: Matsyasana, Sarvangasana, Karna Pidasana.
– HEMORRÓIDAS: Matsyasana, Sarvangasana, Dhanurasana.
– ESTOMATITE (Inflamação da língua): Shitali Pranayama.

3. Asanas para desequilíbrios de Kapha:

– BRONQUITE: Sirshasana, Halasana, Garbhasana, Supta Vajrasana, Ardha Chakrasana, Matsyasana.
– EFIZEMA: Ardha Chakrasana, Sarvangasana.
– RINITE: Matsyasana, Navasana, Halasana, Dhanurasana, Bhastrika.
– SINUSITE: Simhasana, Paschimottanasana, Matsyasana.
– DIABETES: Navasana, Matsyasana, Ardha Chakrasana, Supta Vajrasana, Garbhasana.
– DESORDENS GASTROINTESTINAIS CRÔNICAS: Matsyasana, Shalabhasana, Bhujangasana.
– GARGANTA INFLAMADA: Simhasana, Sarvangasana, Shalabhasana, Matsyasana.
– BRONQUITE ASMÁTICA: Ardha Chakrasana, Dhanurasana, Sarvangasana, Navasana, Nitambasana, Matsyasana, Bhujangasana.

Bibliografia:

– Ayurveda, ciência da auto-cura, Dr. Vasant Lad. Ed. Ground
– Tao e Dharma, Robert Svoboda. Ed. Pensamento.
– Salud y vitalidad, Ayur Veda, medicina milenaria para el hombre de hoy, Daniel Ghiotti e Rubén Devoto. Instituto Ayurvedico del Perú.
– Psicologia do Tantra, Paulo Murilo Rosas.
– Os segredos do Tantra e do Yoga, Paulo Murilo Rosas.
– Yogasanas, Pranayamas, Mudras, Bandhas, Swami Satyananda Saraswati
– Integrative Yogatherapy Manual, Joseph LePage.

Ernani Fornari (Dharmendra)

http://www.geocities.com/yogaterapia

Razões para desintoxicar-se e a vitalidade dos alimentos

Por Conceição Trucom

Aprendendo a nos desintoxicar descobriremos os segredos da saúde plena, a prevenir doenças e a evitar os estimulantes artificiais, que mascaram tudo com a falsa idéia de gerar prazer.

Quanto melhor nos sentimos, mais procuramos meios naturais para nos equilibrarmos (sol, água, alimentos vivos, atividade física, lazer, respiração, etc.). Recorrer às drogas que causam dependência e arruinam a saúde não pode ser considerada uma atitude espiritual ou sábia.

Quanto mais intoxicados estamos, mais precisamos de estimulantes – cada vez mais fortes – para “manter” o equilíbrio. Qualquer desequilíbrio em nosso corpo físico muda nossa disposição e provoca distúrbios emocionais. Qualquer emoção provoca uma descarga de adrenalina no sangue como reação ao estresse. Isso cria um bloqueio das funções de eliminação do corpo, elevando o nível de intoxicação e agravando os distúrbios emocionais.

Esse círculo vicioso é interrompido assim que usamos um processo de desintoxicação, precioso meio preventivo e curativo de numerosos desequilíbrios psíquicos.

Muitos distúrbios, que à primeira vista parecem ter apenas causas psicológicas, são transformados pelos processos físicos de limpeza do organismo. A cura de diversas doenças psiquiátricas graves, freqüentemente consideradas incuráveis, mostra isso.

Qualquer intoxicação do corpo e, qualquer distúrbio emocional provoca uma diminuição das funções cerebrais. Todo mundo sabe como é difícil raciocinar com clareza após uma refeição pesada.

Descobrir o efeito positivo da desintoxicação sobre as faculdades mentais é apaixonante. A concentração, a memória, a capacidade criativa e intuitiva ficam extraordinariamente aguçadas.

Eu sempre afirmo: intestino preso e corpo intoxicado “emburrecem”. Em contrapartida, um corpo desintoxicado fica mais criativo e inteligente. E para fechar, um corpo limpo gera uma harmonia que sinaliza no mínimo saúde.

Todas as grandes religiões da história instituíram períodos de descanso do organismo (Shabat, Ramadã, Quaresma, jejum ritual), para assegurar a boa condição física durante o ano e criar momentos privilegiados para a vida espiritual.

As técnicas de desintoxicação são instrumentos valiosos para nos libertarmos do condicionamento educacional, dos hábitos sociais nocivos para a saúde, das emoções desequilibradas, dos preconceitos e da intolerância.

A experiência individual é insubstituível quando se trata de aprender, sem fanatismo, a manter a forma física, a equilibrar a vida emocional, a ampliar nossa consciência espiritual. Os hábitos agradáveis, a refeição saborosa e os pequenos prazeres não devem ser obrigatoriamente abolidos para sempre. Não há como obter saúde com atitudes de disciplina espartana, mas sim por uma sucessão de adaptações sábias.

A DESINTOXICAÇÃO ALIMENTAR

Sempre é salutar aliviar o organismo da sobrecarga alimentar. A energia normalmente consumida para realizar a digestão de alimentos pesados servirá então para realizar uma limpeza e uma regeneração do corpo físico. Os produtos da natureza (frutas, hortaliças, ervas e sementes) são os alimentos que exigem o menor trabalho digestivo.

Além disso, são dotados de extraordinárias propriedades despoluidoras, ou seja, depurativas. Sua riqueza em fibras assegura uma verdadeira “faxina” no tubo digestivo, levando embora, junto com as fezes, uma grande quantidade de toxinas e resíduos.

Graças a seu elevado teor de vitaminas, sais minerais, oligoelementos, enzimas e substâncias biologicamente ativas de todo tipo, os vegetais fornecem aos órgãos de eliminação os elementos de que necessitam para funcionar plena e perfeitamente. Além disso, quando consumidos crus, fornecem ao corpo uma água cheia de vitalidade.

A maioria das hortaliças demanda calorias ao se deslocarem de uma extremidade à outra do tubo digestivo. Na realidade, para digeri-las, o organismo queima mais calorias do que recebe. Isso gera um balanço calórico negativo, provocando uma perda de peso por combustão das gorduras em excesso.

No livro Você sabe se desintoxicar (Dr. Soleil – Ed. Paulus) os alimentos estão classificados em quatro categorias, de acordo com o seu grau de VITALIDADE.

Acho este conceito de extrema sabedoria, e toda vez que acesso um esclarecimento de forma tão clara e objetiva, não resisto, compartilho imediatamente:

1) Alimentos que GERAM VIDA – chamados BIOGÊNICOS

São a base ideal da alimentação, usando um ponto de vista qualitativo. São os germes e os brotos dos grãos, dos cereais, das leguminosas, das ervas e das hortaliças.
Germes e brotos são as plantas no início de seu crescimento, portanto extremamente ricas em substâncias chamadas de micronutrientes. São as vitaminas, sais minerais, oligoelementos, aminoácidos, enzimas, hormônios vegetais, estimulantes biológicos, etc.).
Ao ingerirmos esse tipo de alimento cru e fresco eles irão reforçar a vitalidade das células e permitir que elas se regenerem constantemente.

2) Alimentos que ATIVAM A VIDA – chamados BIOATIVOS

São a base ideal da nossa alimentação do ponto de vista quantitativo. São as frutas, ervas, hortaliças, leguminosas, nozes (sementes oleaginosas), os bagos, grãos e cereais que já estão maduros e são consumidos em perfeito estado, crus ou deixados de molho.

Os alimentos que geram a vida, e os alimentos que ativam a vida são considerados ALIMENTOS VIVOS. Foram previstos pela natureza para assegurar a vida e o bem estar do ser humano. Seu consumo traz vitalidade e saúde em qualquer idade.

3) Alimentos que DIMINUEM A VIDA – chamados BIOESTÁTICOS

São os alimentos cuja força vital foi reduzida pelo tempo (alimentos crus armazenados por muito tempo), pelo frio (refrigeração e congelamento) ou pelo calor (cozimento). Estão inclusos aqui as carnes, o leite e derivados e os ovos.
O consumo de alimentos bioestáticos é o resultado de hábitos sociais. Seu consumo assegura o funcionamento mínimo de nosso organismo, mas provoca o envelhecimento das células, pois não lhes fornece as substâncias vivas necessárias para sua saudável regeneração.

4) Alimentos que DESTROEM A VIDA – chamados BIOCÍDICOS

São os alimentos que predominam na alimentação moderna. São todos os alimentos cuja força vital foi destruída pelos processos físicos ou químicos de refino, conservação ou preparo.
Os alimentos biocídicos foram inventados pelo homem para sua própria perda. Ganham em praticidade, perdem em qualidade. Ganham em prazer, perdem em saúde.
Falamos do açúcar, principalmente o refinado, sal, chá preto, café, chocolate, bebidas alcoólicas, frituras, alimentos industrializados e aditivados, margarina e óleos refinados.
Envenenam pouco a pouco as células com as substâncias nocivas que contêm. É preciso saber que, mesmo em pequenas doses, qualquer produto químico adicionado aos alimentos é tóxico.
Os processos agrícolas modernos e a industrialização introduzem no organismo substâncias que paralisam o instinto alimentar, perturbam a assimilação e bloqueiam a eliminação. Enfraquecem pouco a pouco o sistema imunológico, causam vários problemas de saúde e abrem portas às chamadas doenças da civilização: doenças cardiovasculares, câncer, reumatismo, diabetes e outras doenças degenerativas e doenças mentais.

RESUMINDO:
ALIMENTOS DE ALTA VITALIDADE
São os alimentos usados na prática da Alimentação Desintoxicante. São fáceis de digerir e apoiam os mecanismos de desintoxicação do corpo: BIOGÊNICOS (geram vida) + BIOATIVOS (ativam a vida).

ALIMENTOS DE BAIXA VITALIDADE
Exigem do organismo grande esforço para serem digeridos, intoxicam e entopem o organismo: Bioestáticos (diminuem a vida) + Biocídicos (destroem a vida).

Conceição Trucom – autora do livro Alimentação Desintoxicante Editora Alaúde.
Reprodução permitida desde que citada a fonte.

Passeio Socrático

Ao viajar pelo Oriente mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão.

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: ‘Qual dos dois modelos produz felicidade?

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: ‘Não foi à aula?’ Ela respondeu: ‘Não, tenho aula à tarde’. Comemorei: ‘Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde’. ‘Não’, retrucou ela, ‘tenho tanta coisa de manhã…’. ‘Que tanta coisa?’, perguntei. ‘Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina’, e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: ‘Que pena, a Daniela não disse: ‘Tenho aula de meditação!’

Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: ‘Como estava o defunto?’. ‘Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!’ Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra!

Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais…

A palavra hoje é ‘entretenimento’. Domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: ‘Se tomar este refrigerante, calçar este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!’O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista.

Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental, três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo.

E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas… Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno… Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald’s…

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas:
‘Estou apenas fazendo um passeio socrático. Diante de seus olhares espantados, explico: ‘Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia:
“Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz!”

Frei Betto